Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Teatro

Tudo posso na estupidez que me fortalece
Tudo afino quando engrosso a minha prece

O tempo é rei e eu sou mais um. Tudo de bom pra esse mundão de deus! Tudo de melhor pra nós! Muita sorte e luz! Felicidade e amor. Compreensão e coragem! Tudo o que houver de melhor nesses dias que vêm. Sem grilos, estamos aí!
Te amo, te encontro!

Uva passa

Pornografia é o ridículo. E meus olhos? Só mostrei o susto que ainda sonha o mesmo. Tantos clarões vendidos nessa feira. Não vem mais ao caso quem cultuamos, em que ano estamos, mas a miragem e o nó.

Tempo que vence os profetas e as famílias
não deixa que me deixem
Apodrece, pelo amor, meus dentes e pele
na companhia dos meus peões
Amaldiçoa meus erros e toda a moral que me resta
nos banhos de amores e encontros a seco
e me afasta do que desejo

Cristaliza meu olhar para que nada me ame
espanta a sorte dos caminhos mais duros
e me afasta do que desejo

Planta a paz no meu repouso, tempo infiel
Planta antes que eu enraize nas nuvens das cabeças que vão
Planta meu destino mais óbvio e me livra do medo
Planta teus cabelos sob minhas mãos

Eu afago e nego
Eu me afogo nos teus excrementos, tempo
Sê rude antes que valha o delicado
Abençoa cada pedaço de terra que há de girar e me pesar
e me afasta do que conheço

Eu poderia pedir como se pede a um desses deuses gregos que devora seus filhos
mas eu vou te evitar, como fiz em outros tempos

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

John Lennon

Eu falo e arroto bostas
Não sou fantástico
Escrevo sobre teu cu
escrevo depois de ver o teu cu
antes de pensar no teu cu

Escrevo com merda nas tuas costas
Não sou de plástico
Eu sou o du, dudu edu
Escrevo antes de enfiar o dedo na garganta
na ferida do teu cu

Eu aceito poucas respostas
um verbo elástico
que é mais azul,
amarelo, não importa
Eu quero é teu cu
e depois escancaro a porta

Vou cheirar teu sovaco
Você cheira embaixo do meu saco
é assim que tudo começa
o blastóporo é o paraíso

Eu vou olhar as partes e o todo
Antes e depois de pensar no teu cu
Antes de amar, eu vou olhar em volta
sem receio ou revolta
Só vou olhar
E o teu cu me olha de volta

É natural como o sol
Como um espanhol ou uma espanhola
é natural
Mais natural que um transsexual que dá o cu
É tão natural que eu devolvo o teu cu depois
de escrever comer e cagar
Eu devolvo porque é assim
Teu cu também tem fim
que nem o movimento punk teve

E quem tem cu tem medo
Meu cu é assim um tabu
Se você sabe de tudo isso e os mulçumanos também amam
por que você não pára e ama um mulçumano
não você
eles
os que dão o cu em segredo
têm aqui meu olhar
eu vejo teu cu piscar
e retribuo a piscadela
eu olho a donzela e recomendo ky
esquece isso, segue em frente
que atrás vem gente

os idiotas que se fodam, não se morda
relaxa esse ombrinho que eu te amo
dorme em paz sem pesadelo
agradeço o presente de natal
você se sente mais adulta agora?
eu sou nojento eu sou humano
sou só cu e coração
um desequilíbrio
eu sou um jumento de pau normal
e sua família é como a minha

você não conhece nada e parece comigo
se quiser dar o cu, o problema é seu
eu nunca dei o meu e sem problemas também

nunca fiz tanta coisa
você merece o pior do baile
e ninguém merece nada

você merece gozar dando o cu
e é a mesma pessoa que matou dois ou três
foda-se o inferno e as boas coisas dessa vida

Eu queria ser John Lennon, desde pequeno
quando meu cu era minúsculo e o seu já era arregaçado
eu cagava nas calças e você se caga só de pensar em dar o cu
é ok

Reparo sem registro

Muito se diz sobre os segundos: eu vejo o ano como um começo de boi. Não há metade seca que impere em nossos modos e de tanto atravessar percebo o passo e o vale suave. Lembro de que estávamos no Recife Antigo, cujo artigo definia Recife como antigo, e que comprávamos literatura de cordel. Era um vendedor, uma venda, duas garotas na mesa e eu. Digo que sempre haviam garotas e elas todas que morram após a sopa marrom. Eu havia transformado o levantar daquela uma que se casou, que nas docas, nas beiras dos rios, comemorava como se fosse mais um sonho. Ela estava vendada sentada que desvendei com flores falsas de perfume barato sem cabaré em que o amarelo é amizade e o vermelho não o era. Era sonho poder realizar e como havia de esperar a noite toda pra que se pensasse no amanhãa, Olinda era uma idéia etérea demais, bem como Paris, mas a casa, de aluguel barato, barata e maconha, tinha a janela magnífica que se olhava para a África por Gaudí. Foi que eu olhei. Tudo era registrado, casado, morto, andante e torto. Tudo pesava no estilo que escrevia o que não assumo. Até o segundo que prevalece, como uma idéia ortográfica-temporal. Um poema que tráz as dúzias de ovos e zês para o olhar. É uma síntese ruim, equilibrada por sereias, caboclos e santos. Hoje, tudo se curva pra o sol que devolve o dia. Eu revolvo cada grão ingerido nos dias de bode. Lembrar do rio é fazer onda e, mascado cada pedaço daquelas terras, eu era orelhão. Óleo e veneno. Sem suborno, sempre ofereço pouco.

O dia entra pelo túneo rebouças, os canos envolvem e as cercas se cansam. É uma guinada. Estava em Copacabana para encontrá-la numa esquina qualquer. Prefiro ficar no centro tilintando moedas. É a opção mais familiar. Entre Flamengo e Botafogo, pela orla, sentido Copacabana, a direita, tem um dendezeiro postado naquelas praças. Um dendezeiro novo que me parece da época das diretas ou do tempo do Figueiredo. Onde qualquer um, o lumpem, sabe MPB. MPB, meus cariocas. Do Rio, bocudas, que se me permite começar sentenças com siglas. Em Madureira, no mercado ou embaixo do viaduto, a cada hora da semana brasileira, posso ferver meu sangue. Outra verdade é caminhar a pé da Glória até o Cristo, por Santa Tereza. Uma possibilidade é comer no Ráscal do Leblon com os globais. Invejar descendentes de artistas na praia tomando mate trocado por maconha. Prefiro o rio e a sujeira que bóia. A sujeira do nosso sangue que espuma quando os pobres nadam no canal que separa Ipanema e o Leblon. Na Mangueira, seu Chubby é o cicerone e Nelson Sargento é o ocupado. Ela me olha como quem sonha ter olhos de azeviche, quer ser musa de um samba de quadra - sempre resolvo:

Resolvo, nêga
que entra em fúria
Don't let them fool ya
Agora chega vamos a mais uma festa reggae

De hoje em diante
Seremos dois diamantes
Mais que amantes
Somos eternos
(quero macaçá, manacá, arruda e alevante)

Das duas uma, meu amor
ou perdemos as pernas
ou as penas nos encontram
e pelo que me consta, nesse valor
não há nada mais ardido e cômico

Já sou o seu querido palindrômico
Tá aqui a tua flor
Tu vens da europa tomar sopa
Eu nasci aqui dentro do som
não se intimide com os sapos
eles que morram após a sopa marrom

Eu topei que ela fosse embora primeiro tomar sorvete em Paraty. Esqueci minha mala com ela, só notei quando o mar virou o youtube. Vagabundo apavora e acaba aceitando a brincadeira sobre o sotaque. Pequenos furtos em supermercado me renderam bons queijos. Mais da europa para os olhos. Lembro de fazer história no baile Soul, Baby, Soul tão frenéticamente até o sol seguinte que fui embora contando os peregúns do caminho. Suava em bicas, o rio é de água quente. A vida é canja. É do dia Democráticos. Circo voou.

Tudo isso com os segundos nas pálpebras. Que apartamento é esse? Acordar noutro lugar é encher o passado. É usar o sono. Eu uso o despertar nas mixagens. Acordo com voz e idéia. Reparo sem registro.

Sábado, Dezembro 08, 2007

vocês que morram

Quinta-feira, Julho 19, 2007

Ninguém merece

Minha espada olha pra você
Eu também tento ver
E do olho sai que não há merecimento nessa vida
Corto o mato melado
Antes de cortar outra cabeça

Vejo que não há merecimento
Há agora um pescoço e uma cabeça
Uma coisa tem muito da outra
Separadas e ligas pela espada
Essas coisas não se merecem

Minha espada olha pra mim
E meu olho para a espada
É tempo de guerra
É o mesmo tempo de amor
Ao mesmo tempo de paz
A paz se merece no sangue que une a cabeça e o pescoço

O sangue e o coração que parou
O outro que palpita
A vida que pulsa no sangue que jorra
Tudo é paz na minha guerra
Minha pupila dilata e vê outra cabeça
Meu coração também vê
Como diz o ditado

É a guerra que me faz despertar
Depois de deitado pela paz
De espada e coração, não sou valente
Sou rapaz

Um rapaz em guerra
Uma guerra santa, um concerto, poesia
Eu sou de sangue
sangue de ferro
espada de ferro

Tenho pouco medo
Mas temo tanto a paz quanto a guerra

Sexta-feira, Julho 13, 2007

Mania

Goza e chora.
Depois sara.
Ama na minha cara.
Depois pára.
Demora.
Pensa e corre.
Escorre.
Mata e morre.
Vai embora.

Não vá agora. Peço fica. Porra, o que será? Já quero mais. Perdôa a rima.

Entra.
Mantra.
Tantra.
Aeroanta.
Pergunta.

Fala de suor e de cu. Fala de olhar. Fala de passagens. Perdôa o livre.

Reclama.
Pijama.
Pindorama.
Cardiograma.
Grama.

Macia morde. Sem perdão cada dia. Só um respeito por vez. Faça fila. Acabe na fila.

Chave.
Cava.
Kava-kava.
Ponstan.
Lava.
Salva.
Salve.
Leve.

Vento vigoroso. Saudade dolorida desgraça. Quem mandou? Não. Outrossim. Em dia.

Aparece.
ninguém merece.
Luxo.
Mexe.
Cutuco.
Avexa.
Anexa.
Creche.
Desce.
Óquei.

Sábado, Maio 19, 2007

Via SEDEX. Um livro assim, antes da publicação, ainda em aquarela. Dois capítulos. Um livro assim: cartográfico.

(vontade de dançar um forró de rosto colado - todo o tempo que eu tiver pra mim é pouco pra dançar com meu benzinho numa sala de rebôco)

Ela - e sempre esse pronome, prometeu colares, camisetas e caprichos, amor eterno mas nunca livros. É como se a cidade não tivesse livraria e quase não tivéssemos livros em casa. A estrela dentre as estrelas.
Embora a relação também se alimentasse do verbo e através das cartas. A cartografia e o formato cheio de páginas e letras tratava da distância e da fome da relação. Alimentação e alimentação.

O livro chegou pelo correio, manuscrito. O diário mostrava o equilíbrio entre a dor e a delícia do que vinha vindo. Um pão-que-o-diabo-amassava de cada dia na barriga de cada fome - vida foi feita pra estar em dia com a fome. Lambada de serpente.

Não sei o que estava escrito, mas era em português e lindo o suficiente para que a minha vó se deslumbrasse e ela não se deslumbra nem com a beleza mais convulsiva, nem com a minha. E ela mandou um beijo pra minha vó. Logo cedo. Dia xis, hoje a gente se falou um pouquinho. Foi legal. Dia pisilone, ele sumiu, acho que está jogando bola. Marcando mil gols.

Depois os mapas: aquele mapa só do nordeste. Lindo. Amarelado, o mar branco. Sem pintura. Aí, o mapa de Recife das pontes. Mapa de Ribeirão dos bares. Mapa do Brasil. Tudo lindo.

Eu abria a caixa achando que fosse uma camiseta. Aqui no sofá. Nesse que eu durmo. Quando venho pra casa da minha mãe, eu durmo no sofá. Embora tenha uma cama de casal no meu quarto. Eu não entendo mas prefiro. Ou entende ou sente ciúme.

Dois pontos:

A dama da lotação

Todo dia, toda a noite, toda hora,
Toda a madrugada, momento e manhã
Todo mundo, todos os segundos do minuto
Vive a eternidade da maçã
Tempo da serpente nossa irmã
Sonho de ter uma vida sã

Quando a gente volta o rosto para o céu
E diz olhos nos olhos da imensidão:
Eu não sou cachorro, não
A gente não sabe nunca ao certo de colocar o desejo

Todo beijo, todo medo, todo corpo
Em movimento está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto, todo pranto, todo manto
Está cheio de inferno e céu
O que fazer com que Deus nos deu?
O que foi que nos aconteceu?

Quando a gente volta o rosto para o céu
E diz olhos nos olhos da imensidão:
Eu não sou cachorro, não
A gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo

Todo homem, todo lobisomem
Sabe a imensidão da fome que tem de viver
Todo homem sabe que essa fome é mesmo grande
Até maior que o medo de morrer
Mas a gente nunca sabe mesmo o que é que quer uma mulher

Dona Flor e seus dois maridos

O que será?
(à flor da pele)

Ambiente Onírico

Ela disse que me ama mas que eu não poderia contar para ninguém. Enquanto isso, na sala da injustiça, uma reunião improvável. O coração lá na rua Augusta e o pensar amazônico.

Todos cheiram e o mundo rodou demais. Rodou de ficar tonto. Fim de certas histórias. O melhor final.

Esticada. Branca. Amarelada. Amarga. Pesada. Poeira.

Terça-feira, Março 20, 2007

A eterna desconhecida

Interpelou os companheiros:
- Sou ou não sou bonito?
Um deles, tomando um refrigerante na própria garrafa, com um canudinho, aventurou:
- Não acho homem bonito. Pra mim, qualquer homem é um bucho.
Acharam graça, riram. Andrezinho, no seu paletó cintado, camisa de um cinza quase roxo – insistia:
- Sou sim. Sou pintoso. Qualquer mulher gosta de mim.
- Qualquer uma?
Enfiou as duas mãos nos bolsos:
- Qualquer uma.
Então, o Peixoto, que tomava uma média num canto do boteco, ergueu-se de sua mesa. Aproximava-
se segurando um pedaço de pão e ainda mastigando. A manteiga escorria-lhe do lábio como uma baba.
Sentou-se perto do Andrezinho. De boca cheia, dizia:
- Vou te provar que és um mascarado. Queres ver?
Andrezinho recostou-se na cadeira:
- Duvi-d-o-dó.
E o outro:
- Ah, duvidas? Pois então escuta e vocês também: eu conheço uma pequena com quem tu não
arranjarias tostão. Aposto os tubos!
Andrezinho piscou o olho para os demais. Inclinou-se, gaiato:
- E se eu conquistar?
- Se você conquistar, pode me cuspir na cara.
Andrezinho levantou-se. Anunciou:
- Está no papo!

O bonitão

Perguntava por toda a parte: “sou ou não sou bonito?’ A princípio, fazia isso por brincadeira. Mas,
pouco a pouco, pela repetição, aquilo tornou-se um hábito, um vício. E acontecia, não raro, uma coisa
interessante: apresentado a uma pessoa, em vez de dizer ”muito prazer”, perguntava:
- Sou ou não sou bonito?
Já o dominava um desses automatismos irresistíveis. Como fosse realmente bonito e, de resto,
simpático, todos achavam graça. Sua sorte no amor era fantástica. Em casa, o telefone não parava. Eram
pequenas, de todos os tipos e classes, que o perseguiam. Dizia-se que até senhoras casadas, muito mais velhas
que ele, o adoravam. E o jeito, meio terno, meio infantil, meio volutuoso, com que ele exaltava a própria
aparência física, era um atrativo a mais. De resto, com o orgulho de narciso confesso, Andrezinho implicava,
na mesma vaidade, até peças de roupa. Mostrava meias de um amarelo extravagante, as gravatas
ultracoloridas, os sapatos. E interpelava os conhecidos:
- Que tal? Viste a classe?
- Mais ou menos.
E ele numa risada:
- Elas não me deixam!

Misteriosa

Até quem numa conversa de café, Peixoto, que na gostava de Andrezinho, diz que conhecia uma
fulana. Andrezinho saltou. Já com seu instinto de sedutor nato em polvorosa, pôs a mão no ombro do outro:
- Pra mim, não existe mulher inconquistável.
Peixoto, que tinha uma perna mais curta que a outra e era um sujeito taciturno e caladão, teimou:
“Pra teu governo – essa cara é. Nem você, nem duzentos como você – arranja nada”. Andrezinho esfregou as
mãos, na euforia da conquista que supunha próxima e inevitável.
- Dá nome, o endereço, o telefone e deixa o resto por minha conta.
Peixoto teve um meio riso sardônico:
- Pra quê? Dar o nome pra quê? Nem adianta.
- Tens medo?
Ergueu-se o outro:
- Não interessa, não interessa. E te digo mais: não quero que um amigo meu banque o palhaço. Até
logo.
Já ia saindo, com sua perna mais curta do que a outra. Então, o Andrezinho arremessou-se no seu
encalço: “ Mas como é essa fulana? Bonita?” Peixoto parou na porta do boteco e rilhava os dentes:
- Se é bonita? Um espetáculo! Duzentas vezes melhor que Heddy Lamarr! Mete a Lana Turner no
chinelo!

Romance

Nessa noite, Andrezinho custou a dormir. Estava acostumado a mulher bonita, à conquista fácil, mas
o fato é que o Peixoto soubera criar uma sugestão diabólica. Quem seria? Como seria? Imaginava um nome,
um rosto ou, por outra: imaginava vários nomes e um rosto múltiplo para a estranha. De manhã, escovando os
dentes, ainda pensava nela com apaixonada obstinação. No ônibus, veio com um amigo. Primeiro perguntou:
“Sou bonito?” Em seguida, admitiu:
- Estou interessadíssimo por uma cara que nunca vi mais gorda. Não é gozado?
Do escritório, ligou para o Peixoto: “Deixa se ser sujo e diz logo – quem é a fulana?”
O outro divertiu-se cruelmente: “Mas você já não está tão cheio de mulher? Entupido de mulheres? E
Andrezinho:
- Solteira, casada ou viúva?
Peixoto foi irredutível:
- Sossega, Andrezinho, que eu não vou te dizer nada. Ou tu me achas com cara de arranjar mulher
pra ti?
Espantou-se:
- Mas olha aqui, seu animal! Não foi tu que tiveste a idéia? Foi o não foi?
- Concordo que sim, aduzindo: “Foi, sim. Porém, mudei de opinião, ora bolas! O que é que eu ganho
com isso? Ganho alguma coisa? Nada!” Andrezinho desligou o telefone, assombrado. E fez o comentário para
si mesmo:
- Que mágica besta!

Imaginação

De noite, encontraram-se no café. Andrezinho, com a imaginação em chamas, arrastou-o para um
canto. Naquela noite, fez o monopólio do amigo, observou-o. Mandou vir cerveja, com a idéias de puxar por
ele. E, de fato, à medida que ia bebendo, Peixoto abriu-se. Lambendo a espuma dos beiços, admitiu que a
outra o conhecia. Andrezinho tomou um susto: “Ah, me conhece? E qual é a impressão dela ao meu
respeito?” Semibêbado, Peixoto piscou o olho:
- Te considera um cretino de pai e mãe. Um idiota chapado!
Doeu-se:
- Mentira tua!
E Peixoto:
- Palavra de honra!
Continuaram a conversa, com um imenso consumo de cerveja. Querendo pôr água na boca do outro,
Peixoto exagerava: “É boa até depois de amanhã. Dessas que derretem edifícios!” E, por fim, iluminado pela
cerveja, praguejava, como um possesso:
- Olha aqui, seu zebu! Eu sou aleijado, sei que sou! Mas a minha vingança, sabe qual é? - Parou, para
tomar fôlego. – é que tu não vais conhecer essa pequena não, percebeste? – Na sua coleta de bêbado,
investiu, querendo agredi-lo:
- Pelo menos essa, tu não vais conquistar, porque eu não deixo!

Obsessão

Três ou quatro dias depois, o próprio Andrezinho reconhecia, em pânico, para os amigos mais
íntimos: “Estou apaixonado e não sei por quem. Vê se pode!” Mando emissários ao Peixoto, com apelos
desesperados. Mas o outro foi irredutível; fazia um gesto de quem usa fecho éclair: “Sou um boca de siri”.
E acrescentava: “Andrezinho pode ser bonito lá pra o raio que o parta. Pra mim, não”. O fato é que,
depois do seu desabafo no boteco, Peixoto mudara com Andrezinho. Cruzava os braços e fechava a
fisionomia, quando o amigo ou ex-amigo vinha pedir:
- Diz quem é. Dá o nome. Só quero saber o nome. Nada mais.
Peixoto calcava a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Parecia hesitar. Inclinava-se:
- O nome não digo. Basta que você saiba o seguinte: é a melhor mulher do Rio de Janeiro. A melhor,
percebeu?
Andrezinho partia desesperado. Os amigos, impressionados com sua obsessão, tentavam chamá-lo à
ordem: “ Quem sabe se não é gozo do Peixoto em cima de ti? Vai ver que é?” Incapaz de atender a qualquer
raciocínio, ele explodia: “Eu só quero saber o nome. Basta o nome. Ou, então, um retrato!” Já não se dizia “
bonito”, nem “pintoso”. Admitia: “Acabo maluco, se já não estou”
No emprego, passava horas imerso numa ardente e inútil meditação. Até que um dia recebe a notícia:
ao atravessar uma rua, Peixoto morrera imprensado entre um bonde e um ônibus. Andrezinho uivou:
“Morto?” E soluçava: “Não é possível! Não pode ser!”
Uns quinze minutos depois, entrava no necrotério. Ao ver o outro, na mesa, definitivamente
silencioso, sentiu-se condenado a amar uma mulher que jamais conheceria. Enfureceu-se. Atirou-se ao
cadáver, sacudia-o, gritando:
- Diz o nome! Quero o nome! Fala!...
Foi agarrado, dominado. Então, caiu de joelhos, no ladrilho. Seu choro era grosso como um mugido.


A vida como ela realmente é.
Mito de Nelson Rodrigues.

Um fio

Bateu na minha cara tudo o que eu virei. Maravilhoso de um jeito obscuro. Egoísta.

Agora é lavar o rosto e olhar o coração batendo.

Se eu confiasse... Ah, se eu confiasse...

Eu confio.

Two Virgins

E faz sentido. Ela sabe porque ligou. Ela sabe que eu fiquei feliz demais. Eu sei que a gente tem tudo a ver. E esse monte de coisa não tem nada a ver. Por mais que se veja. E não se veja mais. E nada. E ver nada.

Ver tente - eu aprendi com ela.

Cada vertente, um sentido. Em todas, o mesmo sentimento.

Fica da gente, o sentimento e muito da tristeza. Ficam oitenta e seis infinitos rodopiando no meu bolso do casaco de veludo. Rodopiando nos meus olhos sem brilho. Brilhando no meu riso que lamenta o próprio riso. Esperando que se viva para que o amanhã seja o melhor, amor. O melhor pra nós dois, amor.

Eu aprendi com ela.

E tanta coisa sobre mim. E nada disso é necessário já que o valor sempre existiu. Talvez agora ele apareça, se assim tiver que ser.

E acredito na vida que aprendi com ela. E aprendi a acreditar. Mas não basta, quero mais disso tudo.

E se a vida trouxe o encontro e fez o pranto.
Há de fazer outro motivo para que eu queira tanto.

Não basta!

Depois da tempestade...

Quando eu ouvi passar o bloco,eu não resisti
Peguei meu violão,segui a multidão
Ao carnaval me entreguei e quase me acabei
Na quarta-feira então, vi que me enganei

Brinquei o carnaval
Mas afinal cansei, cansei-me afinal
Descobri essa verdade
Que em meu lar reside a felicidade

E hoje volto cantando
Me abraço ao violão
E marco o compasso
Junto do coração

São tantas as saudades
Voltei pra ser feliz
Graças à Deus
Que o nosso amor tem raiz

eu rezo.

Candeia consola um alívio ainda estranho. Não quero esse alívio, fogo. Não sopro nem suspiro agora. São braços de todo abertos. Para todo o sempre, abertos:

E por mais que fosse um encontro cruzado em desencontros:

foi de repente, não mais que de repente. Ainda sinto o cheiro da dor no vento que leva tudo para o espaço das coisas grandes. Ainda sinto o sopro do vento que matou as borboletas do meu estômago. Ainda sinto a cor do tufão e sei a maravilha do olho do furacào que foi não compreender absolutamente nada. E escolher viver o novo com o mais novo e saber-se vivo para noviar. Nada está perdido. A velha frase:"O vento leve". É até breve, não nunca mais. Eu, que nunca mais tinha ouvido falar disso tudo, vi nos poucos dois olhos dela a novidade.

A novidade era o máximo. E o mínimo.
Sete paradoxos extendidos na areia.
Nove paradoxos enfrentando os mares.

E foi maré cheia no meu coração. É a coisa mais linda que se pode odiar. É a coisa mais real que se pode tentar. Todos os problemas. Todos os problemas. Só mais um problema.

Eu tenho medo do prazer.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma

E peito de olhar para trás além do horizonte esfinge que diz:
- Eu sou só a manhã. Você ainda não.

São duas notícias diferentes. São duas notícias diferentes. São outros assuntos. São outras palavras. Outros retratos. Outras histórias. São as primeiras estórias. Suspiro salvo. Suspiro que me salva. Hálito do tempo. Sopro que me sopra. Tudo o que me sobra.

Segunda-feira, Março 19, 2007

Temporário

Ciúme daquele que cega o Tempo esfria, ô
Desejo de quem queima sem chama o Tempo gela
Carinho daquele que ama o tempo afia
Namoro que sempre se entrega o Tempo sela

Desprezo gratuito com a gente o Tempo muda, ô
Distância de quem só se aguarda o Tempo estreita
Amor de quem não se acovarda o tempo ajuda
Destino de quem vai em frente o tempo ajeita

Saudade que é mais dolorida o Tempo embola, ô
Tristeza que chega a dar medo o Tempo afasta
No amor nada fica em segredo, o tempo fala
Pra todos os males da vida o tempo basta

Salve Tati!

Xo Xuá - eu não me canso de falar

Ataulfo, meu preto velho, sábio preto velho, canta comigo por psicologias:

Pois é
Falaram tanto
Que desta vez
A morena foi embora

Disseram que ela era a maioral
Que eu é quem não soube aproveitar
Endeusaram a morena tanto, tanto
Que ela resolveu me abandonar

A maldade nessa gente é uma arte
Tanto fizeram que houve a separação
Ai, ai, ai
Mulher a gente encontra em toda parte
Mas não se encontra a mulher
Que a gente tem no coração

Somos dois gritos calados

Na luz desse dia "D".

Domingo, Março 18, 2007

Um show

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 13ª Vara da Família da Comarca da Capital – S.P.
Desventura Martírio Calvário da Cruz, Brasileiro, casado, portador da cédula de identidade R. G. nº 9x13 de São Paulo, residente domiciliado à Rua que Sobe Desce portanto o nº por favor vê se esquece, representado neste ato por sua advogada que esta subscreve, vem mui respeitosamente à presença de V. Excia., requer separação de corpos como medida cautelar preparatória, nos termos de artigo 13 de código civil e artigo 13 da lei nº 13.13 de 13 de abril de 1.900 e nada, contra Estropício Flagelo Esquizo Lunática Corda de Espinhos, portadora da cédula de identidade R. G. mil vezes 13, passando a expor de forma clara e inequívoca através do consagrado compositor, cantor e arranjador da música popular brasileira, Jards Macalé, pois dada a gravidade do assunto ofereceu-se gentil e espontaneamente, para interpretar este desabafo, no lugar do Sr. Desventura. Como o próprio nome diz, não sabe cantar. Eis os fatos e fundamentos Excia.:

Quando já é madrugada mexe o trinco da porta
Eu dormindo sossegado e você chegando torta
Penso ser troço mandado pois a coisa anda solta
Desmilingüida na escada você parecia outra
Estava doida varrida farrapo trapo danada
Esparramada caída tendo que ser carregada
O que que faço com isso perguntava enquanto olhava
Para você Estropício que gemia delirava
De palhaçada já chega muito à troco de nada
Sou eu quem segura as bombas quando você xinga os guardas
Amanhece com ressaca não consegue abrir as pálpebras
Umas nas outras coladas parecendo que tá morta
Passou da medica chega transbordou o copo d’água
Pra que que quero quem chega quando já é madrugada
Acordando o mundo inteiro vomitando na calçada
Pra que quero quem chega e já não presta pra nada
Quando já é madrugada...

Como V. Excia. Pode constatar à bem da verdade, acrescento à esse argumento convicente, e magistralmente cantado, o seguinte:
Dessa união nasceram muitos filhos, o requerente pleiteia que V. Excia. Determine que a requerida deixe o lar conjugal, face ao seu comportamento até porque a separação de corpos como medida preparatória de desquite é de ser antes concedida do que negada. Requerendo a procedência da ação e dando causa e valor de muitos dólares por dar samba pede deferimento.

Justina Justiniana Justa Divagando Legal de Nascença
U.A.U. União dos Advogados Universais

Você parece que não sei
Diz tanta coisa que vou te contar
Olha pensando bem cala-te boca
E tam e tal e coisa e lousa
Sempre a mesma lenga-lenga
A mesma transa o mesmo tchans
E zás e trás tá louco fica só naquela
E fica nessa sei lá maior comédia
O que que é isso logo pra cima de moi
Tô por aqui o sai fora disso
Parece que bebe parece que sei lá

ponto de luz

Me sinto contente
Me sinto muito contente
Me sinto completamente contente
Completamente
Completamente contente
Completamente

Me sinto feliz
Me sinto muito feliz
Me sinto completamente feliz
Completamente feliz
Completamente

Me arrisco a falar
Me sinto muito feliz
Me sinto completamente feliz
Completamente
Completamente feliz
Completamente

Me arrisco a falar
Me sinto contente
Me sinto muito contente
Me sinto completamente contente
Completamente
Completamente contente
Completamente

Me sinto feliz
Me sinto muito feliz
Me sinto completamente feliz
Completamente
Completamente feliz
Completamente

Me arrisco a falar
Me sinto muito feliz
Me sinto completamente feliz
Completamente
Completamente feliz
Completamente

Todos dizem eu te amo e eu também

"Ogum e Xangô duelarão eternamente
seja pela companheira Iansã
ou pela amada Oxum".

Eu nada mais precisaria escrever sobre o oriki. Retroativos, os mitos se lêem e se defendem processos.

Soou como uma bomba de Israel:
- Eu te Amo.

Eu, cá com minhas cartas, cá com meus botões, cá sem o nada que resta do cá sem você.
Eu, já, como cachorro enquanto Eu-já come cachorro.

A bomba imperialistaneo-colonialistaaquelacoisavitoriana soou como um saque pirata entre parênteses:
(amo vc).

Como aquele xixi territorial sobre minhas cartas. Eu responderia com tapas bem aplicados que sim! esse espaço é nosso como nosso coração. Independente da Nossa Estupidez e de toda a tradição de Roberto e Erasmo.

Eu deveria responder como um torcedor do Boca Juniors:
- Eu que amo você, meu amor... eu que te amo pra caralho. Eu que te amo pra sempre e pra sempre incondicionalmente. E cantaria um Paulinho antes da mágoa vir e odiar torcer e odiar qualquer mistura:

Perdi mas uma vez
Agora quero prosseguir em paz
Tanto que falei, voltei
Mas obrigar jamais

Fazer o que eu fiz
Nem adianta contar
Tudo de bom pra você
Eu desejo porque
Sei perder e ganhar

Felicidade há de voltar para mim
Vou me livrar da tristeza
Com toda certeza
Um dia ela pode ter fim

E seria um troco atrás de um trocado. Um trocado atrás da nudez de sempre-sonho-de-sempre. Outro dia em que acordei as sete da manhã em outra cidade. Nesta cidade do nosso espírito da decisão precipitada pra sempre. Pra sempre e agora, de quem sabe ler todos os futuros e eu responderia antes da mágoa girar em transe dentro da transa de sempre, irônico, antes da mágoa, travesso na encruzilhada, bifurcado sobre os próprios caminhos do coração e sobre os próprios caminhos das outras coisas (principalmente dos trocados e negócios), eu soaria suado como quem depois de outro round sorri banguela:

Paulinho Itamarítmo:

Se eu fiz tudo que fiz
Foi pensando em fazer você feliz
Eu dei o pulo que dei e nem podia dar
Mas você não quis

Não quis só porque você sabe tudo o que quer
Ou é porque você não sabe

Pulei de cabeça nessa coisa, coisa, coisa
Entreguei meu sangue e meu plasma
Plasma, plasma, plasma
Mas você não quis

porque sabe
Ou é porque não sabe
Que a coisa é muito louca
Sangue, plasma, corpo, alma e de cabeça

Foi o pulo que eu dei
Pra fazer você feliz
Dei de mim tudo que sei
Mesmo assim você não quis
Ser feliz

O caminho da ironia é elevado viaduto. Quase a fama. Eu, mais outra vez, de todo anonimato tenho a lição de criar um limite ante o irônico - nada atingível de minha seriedade deseperadora. Basicamente, sobre as alturas: grave, grave que olha o céu do condor. Inveja a ironia dos que voam sobre o discutível. Sobre as alturas: Sou baixo e o irônico é soprano. Não é possível na minha tessitura. Clave desconhecida. E mesmo assim eu cantaria sem o riso até que o espírito pop-star entrasse por entre os dentes e antes de ser devolvido-regurgitado pelo amor à idéia e a idéia do amor, responderia:

- I love you all!

Eu pensaria em Kurt Cobain, na mijada que vocês deram e no futuro dos pop-stars carentes.

Territorial Pissing smells like teen spirit:

Come on people now, smile on your brother
Everybody get together, try to love one another right now...
When I was an alien, cultures weren't opinions

Gotta find a way to find a way when I'm there
Gotta find a way - a better way - I had better wait

Never met a wise man, if so it's a woman

Gotta find a way to find a way when I'm there
Gotta find a way - a better way - I had better wait

Just because you're paranoid
doesn't mean they're not after you

Gotta find a way to find a way when I'm there
Gotta find a way - a better way - I had better wait

Gotta find a way to find a way when I'm there
Gotta find a way - a better way - I had better wait


Sobraria agradecer a atenção dispensada e voltaria a velha lenga-lenga balbuciada que explica o nome Lailah (noite em hebraico). Lailah pra mim é tucha e tucha é xoxota em árabe. E a Lailah é Cury e totalmente árabe. Hebraico é a língua dos judeus. E os judeus e os árabes gostam das mesmas coisas mas de maneiras diferentes. A Tati falou pra Lailah Lilás "Lailah é noite em hebraico" e a Tati é judia e todo filho de judia é judeu. A Tati merece um lindo filho. No dia em que nós almoçamos todos juntos e ninguém sabe. Ninguém vê. A Tati judia conversou com a Lailah árabe e ninguém ouviu eu te amos na mesa, nem na tevê. Não se ouviu nada disso nesse dia. Se leu. A Tati leu.

E todos escrevem sobre amor e sobre o eu também.

Aí veio o papo quadrilhesco que não sei quem ama xis e xis amava cicrano e beltrano tava com ciúme e pisilone lembrava a Tati que chegava no meu amor. E a quadrilha continuava e até duvidava de leve dos meus amores. E ficava uma grande pergunta sobre a intimidade. E sobre a Biancamaria que está no oriente e sendo citada. E a Tati leu. Escrever sobre o amor de outrem e sobre o nosso amor por outrem sem processo. E eu fui taxado de sem processo de maneira ridícula. Ridículas maneiras. Que reste a quadrilha e que seja esse o sonho dos imbecis. Não é o meu, nem o nosso.

Como se música não fosse onda e estivesse no universo e como se todos nós merecêssemos discutir nosso amor e como se a internet fosse realmente uma rede e como se realmente 'quem me dera ser um peixe'. Há dúvidas, mas eu responderia:
- Meus amores? Ah, vai tomar no cú! Que amores? Você bebeu. Você bebe. Você come. Cheira. Você fuma. Vai amar na puta que te pariu! E eu. Nunca disse que amo todo mundo e espero nunca amar. Vai tomar no cu e nem nunca tentei.

Eu talvez não responderia isso porque não falo palavrões na quaresma.

Amo porque amo e é muito e é mais um segredo que espalho como semente. Espalho outras coisas também porque ele é um pote até aqui de mágoas. E por mais que eu peça, a Lailah não vai escrever aqui que me ama. Ela disse:
- Ah, Tu, já tem muita gente escrevendo isso lá.

Batucaria também que:

1. eu não me lembro da voz do meu pai.

2. eu conheço muito de música popular brasileira.

3. eu li Heidegger, Deleuze, Baktin, Paulo Coelho e revistas em geral.

4. eu conheço a coisa afro-brasileira e já tive mulheres de todas as cores.

5. Blá blá blaio de qualquer assunto com propriedade...

Mas só falo de você...

E você só vê a merda que eu jogo no ventilador as besteiras de menino idiota que faço e escrevo. Você só vê o meu lado nojento e não vai confiar nunca nunca. Mesmo eu estando todos os dias com você e tocando violão pra você. E fazendo votos de castidade com você.

Aliás, as mais novas trazem novidades!

Há um tempo atrás, eu fui lá no blog da Léli (www.muitoeamiude.blogger.com.br) e escrevi que a amava. Ou seja, eu apóio esse modismo. Eu, Lennon, Gil (da Flora) e Jesus de Nazaré - que não é lá essas coisas nem pros árabes nem pros judeus.

Agradeço do fundo do coração o seu amor. Mas me deixe ser amado, pela mor de deus! Ou me ame...

Aliás, você se acha né?

Sábado, Março 17, 2007

tanto mar

Ela sentou no meu sofá e escorreu as costas no meu sofá. Eu, naquele velho gesto ourives, procurando o que ouvirem, ouvi do meu sofá sua voz ainda estranha de nova e tão linda como toda ela como seus olhos e seus ombros que já haviam escorregado:
- Põe aquela música do Chico Buarque, 'Tanto Mar'...
Ela disse mais alguma coisa sobre o Chico Buarque, o Tom Jobim e Yoga na praia de Itamambuca. Eu ouvi e peguei o disco Almanaque do Chico e botei 'Tanto Amar' pra ouvirmos. Não era aquela canção:
- Você acha que eu ia pedir essa música deprê?
Peguei o tal Chico Buarque de 78 (aquele que tem aquela cara dele meio boba na capa, Feijoada Completa e Cálice) e botei 'Tanto Mar' pra ela.

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Na hora eu pensei na Revolução dos Cravos e principalmente em Alecrim.

Ela também disse:
- Nem me estimula hoje, tá? Eu fiz um trabalho, uma limpeza...
Eu pensei que se tratava de uma mina que gostava de Chico Buarque, Jung, Yoga e além de tudo também era macumbeira. Naquela altura do campeonato pensei na utilidade de um ebó na vida dela naquele momento de encontro. Ela, olhos nos olhos de uns olhos de Xangô e eu ainda pensava no lado Iemanjá dela. Pensava muito na história dela, nas paixões dela, nos mistérios dela. Pensava muito na idade dela. Pensava muito nos ombros dela. Tantos preconceitos. O silêncio dela sempre me soava sábio.

Eu pensava nela toda social, filha de Oxum. Eu quis muito ficar ali com ela e encontrar a paz por um milésimo. Eu vinha de tanta coisa e ia pra tanta coisa que consegui perceber que não vinha e nem ia pra lugar nenhum.

Foi o que sobrou de mim agora. Esse lugar nenhum.

Ela é contemplativa. Ela é contemplativa. Ninguém quer ser contemplativo.

A música deprê:

Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela é bonita
Tem um olho sempre a boiar
E outro que agita

Tem um olho que não está
Meus olhares evita
E outro olho a me arregalar
Sua pepita

A metade do seu olhar
Está chamando pra luta, aflita
E metade quer madrugar
Na bodeguita

Se seus olhos eu for cantar
Um seu olho me atura
E outro olho vai desmanchar
Toda a pintura

Ela pode rodopiar
E mudar de figura
A paloma do seu mirar
Virar miúra

É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
Ou faroleiro

Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela acredita
Tem um olho a pestanejar
E outro me fita

Suas pernas vão me enroscar
Num balé esquisito
Seus dois olhos vão se encontrar
No infinito

Amo tanto e de tanto amar
Em Manágua temos um chico
Já pensamos em nos casar
Em Porto Rico

Hoje é um dia ensolarado em que eu estou bem apesar da solidão. Tudo parece ser possível mesmo assim. Para mim e para mais ninguém. Hoje, eu existo. E queria abraçar alguém que não abraço há muito tempo. Queria chorar com alguém. Sorrir com alguém. Ouvir música com alguém. Mas se não der... que que tem?

Sexta-feira, Março 16, 2007

Maio

Eu ouço pipoca moderna pra sentir algum peso.
É, apesar de tremendo, um peso doce,
doce ferida aberta no corpo ileso.
Doce como cebola, doce como um hálito.
Eu ouço até quem sabe do quem é quem.
É, embora suave, um doce tremendo.
Novo doce em pleno velho hábito
que habito ao redor do que queria que fosse
o tremendo peso suave de quem é doce.

Um belo dia, eu escrevi isso...

Sábado, Março 10, 2007

Jorge Maravilha

Há nada como um tempo
Após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar
Apenas ficar chorando, resmungando
Até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais voando

Você não gosta de mim
Mas sua filha gosta
Você não gosta de mim
Mas sua filha gosta
Ela gosta do tango, do dengo
Do mengo, domingo e de cócega
Ela pega e me pisca, belisca
Petisca, me arrisca e me enrosca
Você não gosta de mim
Mas sua filha gosta

Há nada como um dia
Após o outro dia
Pro meu coração
E não vale a pena ficar
Apenas ficar chorando, resmungando
Até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais sobrevoando

Voce não gosta de mim
Mas sua filha gosta